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London streets |
Blackheath, janeiro de
1875.
Meu amado irmão,
Quão misericordioso é o
Senhor para esconder de nós o futuro. Meu receio é que se tivéssemos visto
o caminho que havia diante de nós, nossas orações teriam morrido em nossos
lábios. Como o Senhor responde às nossas orações? Em ambos os casos
foi por meio de uma doença. Eu fui o primeiro a ser afligido, em
outubro de 1872. Após ter me recuperado um pouco, empenhei-me em meu
trabalho até março de 1873. Aquele período de fraqueza foi o mais
fértil de meu ministério na conversão de almas. Era, portanto, meu mais
sincero desejo permanecer em meu posto de ministro Batista, mas o Senhor iria
me enviar para o deserto para uma longa temporada a fim de que eu perscrutasse
meu coração em Sua presença.
Por ter ficado muito doente,
fui enviado para o continente para um seis meses de descanso, período que
acabou se estendendo por treze meses até eu voltar. Embora o Senhor já tivesse
me separado de minha congregação, eu alegremente me recordo de como eles
ministraram para minhas necessidades ao longo daquele período. Que o
Senhor possa reembolsá-los abundantemente, pois fizeram aquilo como a Ele
próprio na pessoa de Seu servo. Ele, “segundo as suas riquezas, suprirá todas
as suas necessidades em glória, por Cristo Jesus” (Filipenses 4:19).
Antes de apresentar os
exercícios que tive durante a minha estadia na Suíça, deixe-me olhar para frente
alguns meses. Não muito tempo depois de eu ter partido, a sua saúde também
falhou e você também foi para o continente onde, inesperadamente, nos
encontramos em Lausanne. Você sabe como fiquei impressionado com essas “coincidências”
no modo como o Senhor nos tratou! Assim, sugeri considerarmos se poderia
existir algo em nossa posição e ensino que tivesse trazido sobre nós a amorosa
disciplina do Senhor, e que talvez pudesse ser a intenção do Senhor nos
corrigir e nos levar a uma compreensão mais completa da Sua verdade, e a uma
posição mais de acordo com a sua vontade.
Esta questão veio depois de
muito autoexame e autojulgamento. É natural que a tribulação leve o filho
de Deus a perscrutar seu próprio coração. Portanto, tão logo cheguei ao
continente comecei, em minhas caminhadas diárias e durante as minhas noites insones,
a ter sempre diante de mim a seguinte questão: “Qual seria o propósito do
Senhor naquela aflição?” ou “O que Ele queria me ensinar?”. Resolvi
não descansar até descobrir a razão de Sua mão pesando sobre mim. Por isso,
examinei e reexaminei os métodos de trabalho que estava acostumado a usar, as
verdades que ensinava, e a posição que ocupava. Deixe-me brevemente detalhar os
resultados de minha investigação.
Em primeiro lugar, ponderei
sobre meu livro contra “os irmãos”. Logo depois de ter sido publicado eu já
tinha lamentado a sua publicação, pois embora eu acreditasse em tudo o que
tinha escrito, eu sinceramente admirava aquilo que conhecia dos assim chamados “irmãos”. Eu
admirava seu caminhar separado, sua simplicidade de vida e seu amor pela
Palavra de Deus e pela Pessoa de nosso amado Senhor. Fiquei triste por
tê-los ferido e, por causa de meu livro, fechado todas as portas de comunhão
com eles. Além disso, questionei se eu tinha sido justo em criticar
citações tiradas do contexto; se, na verdade, eu tinha honestamente procurado
determinar o seu significado real e, em seguida, testá-las pelas Escrituras.
Portanto, muito antes de
deixar a Inglaterra, parei de promover meu livro. De posse de informações
mais autênticas sobre muitos dos pontos que eu tinha abordado, e tendo sido
forçado a renunciar, depois de examinar as Escrituras, algumas doutrinas que eu
tinha defendido no livro, eu me sentia obrigado não só a retirar o livro do
mercado, mas a confessar que eu já não podia concordar com todas as declarações
que fizera nele. Eu também havia decidido que, na primeira oportunidade, diria
isso publicamente e expressaria minha tristeza pela publicação do livro.
Em seguida, eu examinei
minha prática à luz de meu ensino. Será que eu tinha sido
coerente? Eu tinha que admitir algumas discrepâncias importantes. Eu havia
pregado por muitos anos que os crentes deviam estar congregados, como
crentes no dia do Senhor, para “partir o pão”. Eu também conhecia
o mal que havia no costume de se alugar bancos na congregação. Mesmo sem levar
em conta a inexistência de fundamento bíblico para tal prática, eu havia percebido
que os crentes pobres tinham de se sentar onde pudessem, por mais desconfortável
que fosse, pois os incrédulos em condições de pagar podiam escolher seus assentos. Eu
havia expressado com frequência as minhas convicções sobre estes pontos e, por
conseguinte, sentia-me satisfeito apenas com meu testemunho contra tal prática.
Mas a falha era minha. Eu
era responsável pelas verdades que o Senhor me revelara. Assim, eu era
responsável, na fidelidade a Deus, por colocá-las em prática. Eu havia
negligenciado isso, mas agora Deus me concedia a graça de confessar meu erro e
buscar forças para ser fiel quando retornasse.
Depois testei as doutrinas que
tinha pregado à luz das Escrituras. Aqui também descobri motivos para me
arrepender. Eu havia ensinado a mortalidade do corpo humano do Senhor, no
sentido de que tal corpo iria necessariamente morrer. Eu não estava ciente
dos erros que associados a esta doutrina, caso contrário eu a teria evitado e ficado
horrorizado com ela. Um estudo mais aprofundado mostrou-me que o corpo
humano do Senhor era mortal, mas apenas no sentido de ser capaz de
morrer, e não de maneira alguma, como estando sob a necessidade da morte! Perseverar
em tal ideia seria atacar os próprios fundamentos do sacrifício expiatório do
Senhor na cruz.
A vinda do Senhor para os
Seus santos também ocupou a minha atenção. Eu havia sustentado que, embora
sua vinda fosse pré-milenar (antes do reino de mil anos do Senhor sobre a
terra), eu inseria eventos intermediários antes do “arrebatamento” dos
santos. No meu pensar, a Igreja teria de passar pela grande tribulação e,
portanto, estar na terra durante o reinado do Anticristo. Dediquei todo o
inverno debruçando-me sobre este assunto. Busquei as Escrituras junto com
outros cristãos e, finalmente, conclui que a Igreja não estaria na “tribulação”
-- o período que ocorre entre a vinda do Senhor nas nuvens para os crentes (“Arrebatamento”)
e seu retorno à Terra para reinar (Sua Vinda). Percebi, por exemplo, que
Mateus 24 não se aplica à Igreja.
Com grande alegria percebi
que o crente tem o privilégio de diariamente esperar a volta do Senhor. Há
muito eu tinha uma convicção secreta de que, a menos que fosse assim, muitas
das exortações das Escrituras quanto a “esperar” e “vigiar” tinham pouca força,
e que essa expectativa deveria exercer, no poder do Espírito Santo, a mais
abençoada e santificadora influência sobre a alma do crente.
Minha mudança de ponto de vista
sobre este assunto me ajudou a modificar vários outros pontos. Isso esclareceu
para mim a “natureza” e “vocação” da Igreja; o contraste entre a esperança
terrena do judeu e a esperança celestial do crente, e entre o “reino” e a “Igreja”. Aquilo
me levou a corrigir meu entendimento de outras verdades decorrentes desta
verdade. Todavia, naquele momento não fui mais longe que isso.
Embora durante o inverno, em
leituras bíblicas e conversas com amigos, eu achasse difícil defender as “práticas
eclesiásticas” da denominação com a qual eu estava associado, permaneci na
posição que ocupava nela. Com as exceções acima, eu não tinha alterado qualquer
princípio fundamental -- ao menos nada que afetasse a minha continuidade no
posto que mantido por tantos anos. Se eu tinha qualquer ideia de alterar a
minha posição, a simples perspectiva de em breve voltar à minha amada
congregação era suficiente para eliminar tal ideia e restabelecer minha
confiança. Assim, quando finalmente comecei a viagem de volta para casa, meu
único medo era se minha saúde me permitiria retomar o trabalho interrompido por
tanto tempo.
Afetuosamente, no Senhor,
Edward Dennett